quinta-feira, 6 de abril de 2017

A arte da acusação invertida


Prezados

Ao compartilhar um artigo sobre os "pobres de direita", um amigo acusou-me de estar fomentando idéias do século 19. Trata-se da muito conhecida "arte da acusação invertida", bastante praticada por extremistas, sejam de direita ou de esquerda.

As reformas que vêm sendo propostas pelo grupo que assumiu o governo estão alinhadas com um modelo que pretende minar a soberania do Brasil, como já foi feito diversos outras vezes.

Este modelo prevê a perda de algumas importantes conquistas de um frágil estado de bem estar social, sem contrapartidas palpáveis, com o consequente esvaziamento da classe média, eliminando um dos maiores trunfos de um pais de dimensões continentais - que seria um excepcional mercado interno.
 
Ao gerar uma sociedade pobre, periférica e não inclusiva, incapaz de romper o ciclo vicioso da desigualdade social e que mais parece uma caricatura da sociedade americana (USA), o modelo afasta a população brasileira em geral do pleno aproveitamento das potencialidades naturais que este país tem. É a perpetuação desse modelo, proposto por uma classe dominante mesquinha e retrógrada, que irá nos manter no século 19, tentando chegar ao século 20, a despeito de já estarmos no século 21.

Forte abraço

Fernando Goldman

Obs.: Publicado orifinalmente no Facebook.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Ser de direita ou de esquerda na Sociedade do Conhecimento


Eu me confesso confuso lendo alguns dos meus pares no Facebook. Ora me dizem que a distinção entre esquerda e direita acabou, ora me dizem que não existe mais distinção entre ricos e pobres, neste novo século (já nem tão novo assim), nesta nova sociedade digital que se configura. E eu, que penso na opção pela esquerda como uma forma de promover a diminuição da desigualdade social (para mim o problema fundamental do Brasil – a partir dele todos os outros se resolveriam) e consequentemente diminuir o hiato entre ricos e pobres, promovendo uma sociedade melhor - não utópica, mas certamente - menos violenta, fico me perguntando se eu perdi alguma coisa.

É claro que com a queda do Muro de Berlim, aliada ao apogeu do neoliberalismo, não sobrou muito espaço para as experiências de abolição da propriedade privada dos meios de produção, nem para a instalação de um estado forte (“ditadura do proletariado”). Graças a Deus! Assim, nem pensar em planejamento centralizado, capaz de eliminar as falhas de mercado, típicas do capitalismo, responsáveis pelas distorções no equilíbrio demanda-produção, que dão margem à especulação e consequente acumulação de renda nas mãos de uns poucos, sempre em detrimento dos mais pobres.
 
Aliás, essa história de planejamento centralizado não deu certo até hoje e Hayek, em 1945, já sabia que o problema era de conhecimento.   

Assim, se para você, uma pessoa se declarar de esquerda, ou de direita, é apenas adotar, ou não, a teoria marxista elaborada no século XIX, em que comunismo e socialismo seriam duas etapas sucessivas no desenvolvimento da sociedade humana, ocorrendo após o colapso do sistema capitalista, a má, ou a boa, notícia, é que o capitalismo ainda não colapsou, enquanto os regimes totalitários que se diziam comunistas... . Se para você “ser de esquerda” era só isso, realmente, não há muito espaço político, no mundo de hoje para você, sendo talvez mais fácil imaginar que não há mais distinção entre esquerda e direita.

Porém, ser de direita ou de esquerda traduz uma tendência ideológica. Se o capitalismo não colapsou, se a destruição criativa ainda tem forças para se auto alimentar, podemos, pelo menos, discutir que tipo de capitalismo queremos. O mais radical, do tipo “o vencedor leva tudo”, ou alguma das variações de capitalismo disponíveis por aí, ou até quem sabe uma invenção tupiniquim, capaz de acomodar esse caldeirão que é o Brasil. O fato é que mesmo sem o fantasma do socialismo/comunismo no horizonte, há muito espaço para mudanças sociais através do voto, preservando a democracia. E nunca é demais lembrar que os partidos que se dizem de esquerda hoje no Brasil, e mesmo os ditos sociais, não nos representam.

Vale a pena ainda lembrar que para Hayek , o principal argumento que privilegiava uma Economia de Mercado em relação a uma Economia Centralmente Planejada é justamente o fato de que o conhecimento necessário às decisões centralizadas estaria disperso entre muitas pessoas. Nas palavras dele “O problema prático, no entanto, surge precisamente porque esses fatos [os necessários ao planejamento centralizado] nunca são, assim, dados a uma única mente e porque, em consequência, é necessário que na solução do problema o conhecimento, que deve ser usado, está disperso entre muitas pessoas” (HAYEK, 1945).

De 1945 para cá muita coisa mudou. Muito, em parte, pelas contribuições do próprio Hayek, porém os desenvolvimentos esperados das Tecnologias da Informação e das Comunicações - tais como "machine learning", "causal inference", "Internet das Coisas (IoT)" e o imenso volume de dados, estruturados e não estruturados, conhecidos como "Big Data" - trarão novos elementos a essa discussão.
 
Forte abraço
 
Fernando Goldman
 
HAYEK, F. A. The use of knowledge in society. American Economic Review. v. 35, n.4,
p. 519-530, set. 1945.